terça-feira, 7 de outubro de 2008

Ensaios















Quando eu comecei a ler "Ensaio sobre a cegueira" de José Saramago, no início achei aquilo meio viagem. Mas depois de uma conturbada e profunda vivência nesta última campanha política, entendi o bom português ganhador do Nobel.
O livro retrata uma epidemia de cegueira "branca" que ataca uma população. A grande sacada da história é a retratação do sentimento humano quando o homo sapiens se vê desprovido de regras e principalmente, perde o pudor pelas coisas que antes poderiam ser vistas como: nudez, necessidades básicas, egoísmo entre tantos. O livro retrata o verdadeiro homem, em estado bruto, guardado dentro de nós pelas barreiras técnicas da ética e sociabilização (nos EUA uma entidade dos direitos civis para cegos prometeu um protesto em massa nos cinemas contra o filme do brasileiro Fernando Meirelles por retratar os cegos como animais, eles não entenderam que a "cegueira" que o filme retrata não é fisíca, mas sim sentimental, será que fizeram esse livro em braile?)
"Que merda isso tem a ver com política?". Tudo.
Minha cidade Carlópolis ( qualquer coisa manda no mapa do Google), possui cerca de 14 mil habitantes. Um colégio eleitoral com aproximadamente 10 mil eleitores. Teve nesse período democrático mais uma experiência que poderia servir de embasamento para a cura do mal de Alzheimer, com resultados muito mais instantâneos que as células tronco-embrionárias.
O vencedor já havia sido prefeito em 92. Deixou a prefeitura com 3 meses de salários atrasados e com uma divída homérica a ser quitada (não havia a Lei de Prestação de Contas na época). Ao ser eleito novamente em 2004 construiu um mandato de pão e circo.
Pão e circo foi o nome dado para a política de Roma que, em substancial crescimento agregou vários problemas urbanos. Para amenizar esses problemas eles colocavam uns escravos se matando no Coliseu e distribuíam comida para a população carente esquecer dos problemas.
Qual o segredo do esquecimento então? Dinheiro. Isso, essa cédula la em cima que poucos de nós conhecemos, foi o maior diferencial nesta campanha, e não adianta Lavínia Vlasak vir todo o dia na televisão com a mão no barrigão pedir pra não vender o voto. O cara que precisa comprar gás, a dona que faz três semanas que ta a base de ovo, o jovem que conseguiu agora beber uma de boa no boteco, não vão lembrar de você Lavínia, eles vão esquecer os 4 anos que se passaram de mínguas.
O problema que até o tráfico se mantém no poder arrumando os problemas de curto prazo para uma comunidade.
Mas a democracia exige isso, e ela ainda é o maior e melhor meio de escolher nossos governantes.
E é atacando o estado bruto da "cegueira" que o dinheiro ganha uma eleição.
Ensaio sobre a cegueira.
Ensaio sobre a ganância.
Ensaio sobre a política.
Ensaio sobre a humanidade.
E enquanto isso eu voi ensaiando a viver no pão e circo mais uma vez.

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